Em julho de 2026, Felipe Wanderley, gerente nacional de grandes contas da Solfácil, passou uma manhã no escritório da LIV em Natal. A Solfácil financia projetos solares em todo o país e acompanha de perto algo entre cem e cento e cinquenta integradoras, de um universo que ele estima em dez mil. Quem ocupa essa cadeira vê o mercado por um ângulo que nem quem instala, nem quem compra costuma enxergar.
A primeira frase que ele disse, antes mesmo de a conversa esquentar, foi a mais forte: "eu aposto com qualquer um aqui, daqui a dois anos não vai existir um projeto residencial sem bateria".
- 1:11Por que a bateria se vende pela tarifa
- 3:13A bateria de R$ 12 mil que virou R$ 5 mil
- 3:32Por que a distribuidora desliga usina no meio do dia
- 5:14O que fez ele escolher a empresa dele, e não foi preço
Aposta de gerente comercial merece ser lida com desconfiança, e a LIV leu assim. Só que o raciocínio por trás dela não depende de opinião: são três coisas que já estão em cronograma publicado e uma que já aconteceu no preço. Este artigo separa o que é previsão do que é regra, e diz o que a LIV está de fato recomendando para quem vai instalar agora.
O argumento é de tarifa, não de falta de luz
TL;DR Vender bateria como proteção contra apagão funciona mal no Rio Grande do Norte, onde a interrupção é rara. O que dá retorno próprio ao armazenamento aqui é o preço da energia mudar conforme a hora do dia.
A conversa começou justamente derrubando o argumento mais usado para vender bateria. Em Natal e nas cidades maiores do estado, a luz cai pouco. Quem tenta vender armazenamento pela promessa de não ficar no escuro depende de o cliente ter passado por uma interrupção na semana anterior, e isso é exceção. O próprio Felipe disse que, na realidade dele, numa capital grande, a bateria por segurança de fornecimento não se sustentaria.
O que sustenta é a tarifa. E aqui entra o pedaço que a maioria das propostas comerciais ainda não explica.
A tarifa branca é uma modalidade opcional para consumidores de baixa tensão. Ela existe desde 2018 e está disponível para qualquer residência desde janeiro de 2020, por regra da ANEEL, com exceção dos consumidores de baixa renda e da iluminação pública. Na tarifa convencional, o kWh custa o mesmo às três da tarde e às sete da noite. Na tarifa branca, não: existe um posto de ponta, no fim da tarde e começo da noite, em que o kWh fica bem mais caro, e um posto fora de ponta, no resto do dia, em que ele fica mais barato que na convencional.
Agora junte isso com o comportamento de uma casa. O sistema on-grid gera no meio do dia, quando quase ninguém está em casa. A família consome de noite: chuveiro, ar-condicionado, forno, televisão. Na tarifa convencional, um kWh devolvido ao meio-dia compensa um kWh consumido às oito da noite pelo mesmo preço, e a troca é neutra. Na tarifa branca, a energia que a usina devolve de dia vale menos do que a energia que a casa consome à noite custa. A compensação deixa de ser um para um em dinheiro.
Foi exatamente esse o ponto dele: "o maior consumo é de noite, o maior custo de energia solar é de noite". A bateria resolve esse descasamento guardando a geração do meio-dia para gastar no horário caro.
O Fio B chega a 90% em 2028, e isso muda o valor da energia injetada
TL;DR A energia consumida no mesmo instante em que é gerada não passa pela rede e não paga Fio B. A que é injetada e compensada depois paga um percentual crescente, que vai a 90% em 2028. Armazenar converte energia injetada em energia consumida direto.
A Lei 14.300 criou a cobrança progressiva da TUSD Fio B sobre a energia injetada na rede por sistemas conectados a partir de janeiro de 2023. O cronograma está em 60% em 2026, sobe para 75% em 2027 e chega a 90% em 2028, onde estaciona. Já explicamos esse cronograma em detalhe, com simulação de payback, no artigo sobre a Lei 14.300 e o prazo do Fio B.
O detalhe técnico que quase ninguém explica na hora da venda é este: o encargo incide sobre a energia que vai para a rede e volta como crédito, não sobre a energia que a casa consome no mesmo momento em que a usina produz. Autoconsumo instantâneo não atravessa a rede da distribuidora e, por isso, não carrega o Fio B.
É aí que armazenamento e regulação se encontram. Uma bateria não gera energia nenhuma, ela só desloca a hora do consumo. Só que ao deslocar, transforma energia que iria para a rede em energia consumida direto pela casa. Quanto maior o percentual de Fio B, maior o valor desse deslocamento. Em 2026, com 60%, a diferença ainda é modesta para a maioria dos perfis. Em 2028, com 90%, ela deixa de ser detalhe.
O preço já caiu, e caiu rápido
A parte da conversa que mais surpreendeu a equipe foi o número. Segundo Felipe, uma bateria que custava por volta de R$ 12 mil no ano passado estava, em julho de 2026, na faixa de R$ 4.900 a R$ 5.000. Uma queda de quase 60% em cerca de um ano.
Uma ressalva que a LIV faz questão de deixar clara: esse valor é o do equipamento, não o de um sistema híbrido pronto. Colocar armazenamento em um projeto envolve inversor compatível, proteções, quadro e mão de obra. Quando alguém apresenta "bateria por cinco mil" como se fosse o custo da solução inteira, está comparando peça com projeto. Em proposta séria, esses itens aparecem separados e somados.
Ainda assim, a direção do preço importa mais que o número exato. Uma tecnologia que cai nessa velocidade tende a atravessar, em poucos anos, a fronteira em que ela passa a se pagar sozinha para o consumidor médio. Foi o que aconteceu com o módulo fotovoltaico entre 2015 e 2020, e é a razão pela qual a previsão dele não é absurda.
Por que a distribuidora desliga usina no meio do dia
TL;DR O sistema elétrico brasileiro já tem, em alguns momentos, mais geração solar no meio do dia do que consegue absorver. O corte de geração é o sintoma físico do mesmo problema que a bateria resolve dentro de casa.
Um trecho da conversa saiu do assunto residencial e explica o pano de fundo. Felipe descreveu usinas de grande porte sendo desligadas no período de maior geração para não sobrecarregar o sistema, com o investidor assistindo à própria usina parada. "Tem que desligar, senão o sistema do Brasil colapsa", foi como ele resumiu.
O nome técnico disso é corte de geração, e ele acontece porque a curva de produção solar e a curva de consumo do país não se encontram. O sol entrega tudo no meio do dia; a demanda do Brasil sobe no fim da tarde, quando a geração solar já está caindo. Sem uma forma de guardar a energia entre um momento e outro, sobra energia numa hora e falta na outra.
Uma casa com sistema on-grid vive uma versão pequena e privada exatamente do mesmo desencontro. A diferença é que quem tem usina de grande porte não pode resolver sozinho, e o dono de uma residência pode, com uma bateria e um inversor compatível.
O mercado livre chega, mas para residência é 2028, não 2027
Na gravação, ele mencionou que "ano que vem abre o mercado livre de energia". A previsão está na direção certa, e o calendário publicado permite ser mais preciso do que uma conversa gravada permite.
A Lei 15.269, sancionada em 24 de novembro de 2025, definiu a abertura para os consumidores de baixa tensão em duas etapas: comerciais e industriais até novembro de 2027, residenciais até novembro de 2028. A proposta do Ministério de Minas e Energia trabalha com 1º de março de 2027 e 1º de março de 2028, e a ANEEL colocou o detalhamento regulatório na agenda de 2026 e 2027.
| O que muda | Quando | Situação |
|---|---|---|
| TUSD Fio B em 75% | Conexões em 2027 | Lei 14.300, cronograma fechado |
| TUSD Fio B em 90% | Conexões a partir de 2028 | Lei 14.300, teto do cronograma |
| Mercado livre para comércio e indústria de baixa tensão | Até nov. de 2027 | Lei 15.269, regulamentação em curso |
| Mercado livre para residências | Até nov. de 2028 | Lei 15.269, regulamentação em curso |
| Tarifa branca disponível para toda a baixa tensão | Desde jan. de 2020 | Regra da ANEEL, adesão opcional |
Reunidas numa linha do tempo, as três datas explicam a aposta dele melhor do que a frase sozinha explicava. 2028 é o ano em que o encargo sobre a energia injetada chega ao teto e, no mesmo período, a residência ganha o direito de escolher de quem compra energia. Um consumidor que pode escolher fornecedor e que paga caro para devolver energia à rede tem muito mais motivo para guardar a própria geração do que o consumidor de hoje.
O que a LIV está recomendando com isso na mão
TL;DR Não é hora de comprar bateria com medo de 2028. É hora de exigir que o projeto instalado agora suporte receber uma bateria depois, sem trocar o inversor.
Uma leitura apressada desse cenário levaria a um discurso de urgência, e não é isso que a LIV vai fazer. Para a maior parte das residências do Rio Grande do Norte, hoje, o sistema on-grid sem bateria continua sendo a decisão de melhor retorno. A maioria segue na tarifa convencional, o Fio B ainda está em 60% e o preço do armazenamento, apesar da queda, ainda alonga o payback do conjunto.
O que muda no nosso jeito de trabalhar é outra coisa: o projeto precisa nascer preparado. A decisão que custa caro não é deixar de comprar bateria hoje, é instalar um sistema que só sabe injetar na rede e descobrir, daqui a três anos, que colocar armazenamento exige trocar o inversor inteiro. Essa diferença é decidida no papel, antes da instalação, e é o assunto do artigo sobre por que o sistema solar deve ser projetado pensando no off-grid.
Na prática, isso aparece em três lugares da nossa proposta. O inversor especificado precisa aceitar armazenamento ou permitir acoplamento sem retrabalho. O quadro e o espaço físico precisam comportar o gabinete da bateria. E o dimensionamento precisa olhar o horário do consumo da casa, não apenas o total da conta de luz. Uma família que consome 500 kWh concentrados à noite e outra que consome os mesmos 500 kWh espalhados pelo dia não deveriam receber a mesma proposta, e ainda recebem, no mercado inteiro.
Felipe defendeu que a integradora apresente duas propostas ao cliente, uma com sistema convencional e outra com híbrido, mesmo sabendo que a maioria vai escolher a primeira. O argumento dele é comercial, e concordamos com ele por um motivo que é de outra ordem: cliente que enxergou as duas contas lado a lado decide com informação. Cliente que só viu uma decide no escuro e descobre a outra depois, geralmente por um vizinho.
É o mesmo raciocínio que sustenta o resto do jeito como a LIV trabalha. A gente não acha que a melhor decisão é a mais rápida, e não acha que a antecipação de uma regra de 2028 seja motivo para apressar ninguém em 2026. Acha que o cliente merece ver o cronograma inteiro antes de assinar, inclusive a parte que ainda não aconteceu.
Seu projeto suporta receber uma bateria depois?
A simulação parte da sua conta de luz e do horário em que a sua casa consome, e mostra o dimensionamento junto com o retorno estimado. Se o solar não fizer sentido para o seu perfil, ela diz isso também.
Fazer minha simulação gratuitaPerguntas Frequentes
Energia solar com bateria vale a pena em 2026?
Para a maior parte das residências de Natal e do Rio Grande do Norte, o sistema on-grid sem bateria ainda entrega o melhor retorno em 2026, porque a região tem poucas interrupções de fornecimento e a maioria dos consumidores segue na tarifa convencional, que cobra o mesmo valor pelo kWh a qualquer hora. A conta muda em dois cenários: quando o consumidor migra para a tarifa branca, que encarece o consumo do fim da tarde e do começo da noite, e à medida que o TUSD Fio B avança para 90% em 2028, reduzindo o valor da energia injetada na rede. Nesses dois casos, guardar energia para usar à noite passa a ter retorno próprio.
Quanto custa uma bateria para energia solar em 2026?
Felipe Wanderley, gerente nacional de grandes contas da Solfácil, citou em julho de 2026 uma faixa de R$ 4.900 a R$ 5.000 para a bateria, contra cerca de R$ 12 mil no ano anterior. Esse valor é o do equipamento, não o de um sistema híbrido completo: adicionar armazenamento a um projeto envolve também inversor compatível, proteções, quadro e mão de obra. Em uma proposta séria, esses itens aparecem separados.
O que é tarifa branca e por que ela muda a conta de quem tem energia solar?
A tarifa branca é uma modalidade tarifária opcional para consumidores de baixa tensão, disponível para todos desde janeiro de 2020 por regra da ANEEL, com exceção dos consumidores de baixa renda e da iluminação pública. Nela o preço do kWh varia com o horário: fica mais caro no posto de ponta, no fim da tarde e começo da noite, e mais barato fora dela. Para quem tem energia solar isso é relevante porque o sistema on-grid gera no meio do dia e a casa consome mais à noite. Na tarifa convencional os dois se compensam pelo mesmo preço. Na tarifa branca, a energia devolvida de dia vale menos do que a consumida à noite custa.
Quem já tem sistema on-grid consegue instalar bateria depois?
Depende de como o projeto foi feito. Sistemas dimensionados apenas para injetar na rede costumam usar inversor sem entrada para armazenamento, e nesse caso adicionar bateria exige trocar o inversor ou acrescentar um segundo equipamento, o que encarece bastante a conversão. Projetos preparados desde o início deixam a compatibilidade resolvida no inversor e no espaço físico do quadro, e a bateria entra depois como um acréscimo, sem refazer a instalação.
Quando o mercado livre de energia abre para residências no Brasil?
A Lei 15.269, sancionada em 24 de novembro de 2025, definiu o calendário de abertura para os consumidores de baixa tensão. Os consumidores comerciais e industriais de baixa tensão passam a poder escolher o fornecedor até novembro de 2027, e os residenciais até novembro de 2028. A proposta do Ministério de Minas e Energia colocou as datas em 1º de março de 2027 e 1º de março de 2028, respectivamente, e a ANEEL trata do detalhamento regulatório na agenda de 2026 e 2027.
Bateria serve para não ficar sem energia quando falta luz?
Serve, desde que o sistema seja projetado com essa função. Um inversor híbrido com bateria consegue manter cargas essenciais funcionando durante uma interrupção da rede, o que um sistema on-grid comum não faz, porque ele se desliga por segurança quando a rede cai. Em Natal e nas cidades maiores do Rio Grande do Norte, porém, a frequência de interrupções é baixa, e esse benefício isolado raramente paga o investimento. O argumento econômico mais forte para armazenamento no estado é tarifário.