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Energia solar com bateria: o que muda com a tarifa branca e o Fio B em 90%

Um gerente nacional da Solfácil esteve no escritório da LIV e apostou que, até 2028, projeto residencial sem bateria vira exceção no Brasil. A conta que sustenta a aposta é tarifária, e boa parte dela já está escrita em lei.

11 de ago. de 2026 10 min de leitura Com vídeo

Em julho de 2026, Felipe Wanderley, gerente nacional de grandes contas da Solfácil, passou uma manhã no escritório da LIV em Natal. A Solfácil financia projetos solares em todo o país e acompanha de perto algo entre cem e cento e cinquenta integradoras, de um universo que ele estima em dez mil. Quem ocupa essa cadeira vê o mercado por um ângulo que nem quem instala, nem quem compra costuma enxergar.

A primeira frase que ele disse, antes mesmo de a conversa esquentar, foi a mais forte: "eu aposto com qualquer um aqui, daqui a dois anos não vai existir um projeto residencial sem bateria".

A conversa completa, gravada no escritório da LIV. Dez minutos.
  • 1:11Por que a bateria se vende pela tarifa
  • 3:13A bateria de R$ 12 mil que virou R$ 5 mil
  • 3:32Por que a distribuidora desliga usina no meio do dia
  • 5:14O que fez ele escolher a empresa dele, e não foi preço

Aposta de gerente comercial merece ser lida com desconfiança, e a LIV leu assim. Só que o raciocínio por trás dela não depende de opinião: são três coisas que já estão em cronograma publicado e uma que já aconteceu no preço. Este artigo separa o que é previsão do que é regra, e diz o que a LIV está de fato recomendando para quem vai instalar agora.

O argumento é de tarifa, não de falta de luz

TL;DR Vender bateria como proteção contra apagão funciona mal no Rio Grande do Norte, onde a interrupção é rara. O que dá retorno próprio ao armazenamento aqui é o preço da energia mudar conforme a hora do dia.

A conversa começou justamente derrubando o argumento mais usado para vender bateria. Em Natal e nas cidades maiores do estado, a luz cai pouco. Quem tenta vender armazenamento pela promessa de não ficar no escuro depende de o cliente ter passado por uma interrupção na semana anterior, e isso é exceção. O próprio Felipe disse que, na realidade dele, numa capital grande, a bateria por segurança de fornecimento não se sustentaria.

O que sustenta é a tarifa. E aqui entra o pedaço que a maioria das propostas comerciais ainda não explica.

A tarifa branca é uma modalidade opcional para consumidores de baixa tensão. Ela existe desde 2018 e está disponível para qualquer residência desde janeiro de 2020, por regra da ANEEL, com exceção dos consumidores de baixa renda e da iluminação pública. Na tarifa convencional, o kWh custa o mesmo às três da tarde e às sete da noite. Na tarifa branca, não: existe um posto de ponta, no fim da tarde e começo da noite, em que o kWh fica bem mais caro, e um posto fora de ponta, no resto do dia, em que ele fica mais barato que na convencional.

Agora junte isso com o comportamento de uma casa. O sistema on-grid gera no meio do dia, quando quase ninguém está em casa. A família consome de noite: chuveiro, ar-condicionado, forno, televisão. Na tarifa convencional, um kWh devolvido ao meio-dia compensa um kWh consumido às oito da noite pelo mesmo preço, e a troca é neutra. Na tarifa branca, a energia que a usina devolve de dia vale menos do que a energia que a casa consome à noite custa. A compensação deixa de ser um para um em dinheiro.

Foi exatamente esse o ponto dele: "o maior consumo é de noite, o maior custo de energia solar é de noite". A bateria resolve esse descasamento guardando a geração do meio-dia para gastar no horário caro.

O Fio B chega a 90% em 2028, e isso muda o valor da energia injetada

TL;DR A energia consumida no mesmo instante em que é gerada não passa pela rede e não paga Fio B. A que é injetada e compensada depois paga um percentual crescente, que vai a 90% em 2028. Armazenar converte energia injetada em energia consumida direto.

A Lei 14.300 criou a cobrança progressiva da TUSD Fio B sobre a energia injetada na rede por sistemas conectados a partir de janeiro de 2023. O cronograma está em 60% em 2026, sobe para 75% em 2027 e chega a 90% em 2028, onde estaciona. Já explicamos esse cronograma em detalhe, com simulação de payback, no artigo sobre a Lei 14.300 e o prazo do Fio B.

O detalhe técnico que quase ninguém explica na hora da venda é este: o encargo incide sobre a energia que vai para a rede e volta como crédito, não sobre a energia que a casa consome no mesmo momento em que a usina produz. Autoconsumo instantâneo não atravessa a rede da distribuidora e, por isso, não carrega o Fio B.

É aí que armazenamento e regulação se encontram. Uma bateria não gera energia nenhuma, ela só desloca a hora do consumo. Só que ao deslocar, transforma energia que iria para a rede em energia consumida direto pela casa. Quanto maior o percentual de Fio B, maior o valor desse deslocamento. Em 2026, com 60%, a diferença ainda é modesta para a maioria dos perfis. Em 2028, com 90%, ela deixa de ser detalhe.

O preço já caiu, e caiu rápido

A parte da conversa que mais surpreendeu a equipe foi o número. Segundo Felipe, uma bateria que custava por volta de R$ 12 mil no ano passado estava, em julho de 2026, na faixa de R$ 4.900 a R$ 5.000. Uma queda de quase 60% em cerca de um ano.

Uma ressalva que a LIV faz questão de deixar clara: esse valor é o do equipamento, não o de um sistema híbrido pronto. Colocar armazenamento em um projeto envolve inversor compatível, proteções, quadro e mão de obra. Quando alguém apresenta "bateria por cinco mil" como se fosse o custo da solução inteira, está comparando peça com projeto. Em proposta séria, esses itens aparecem separados e somados.

Ainda assim, a direção do preço importa mais que o número exato. Uma tecnologia que cai nessa velocidade tende a atravessar, em poucos anos, a fronteira em que ela passa a se pagar sozinha para o consumidor médio. Foi o que aconteceu com o módulo fotovoltaico entre 2015 e 2020, e é a razão pela qual a previsão dele não é absurda.

Por que a distribuidora desliga usina no meio do dia

TL;DR O sistema elétrico brasileiro já tem, em alguns momentos, mais geração solar no meio do dia do que consegue absorver. O corte de geração é o sintoma físico do mesmo problema que a bateria resolve dentro de casa.

Um trecho da conversa saiu do assunto residencial e explica o pano de fundo. Felipe descreveu usinas de grande porte sendo desligadas no período de maior geração para não sobrecarregar o sistema, com o investidor assistindo à própria usina parada. "Tem que desligar, senão o sistema do Brasil colapsa", foi como ele resumiu.

O nome técnico disso é corte de geração, e ele acontece porque a curva de produção solar e a curva de consumo do país não se encontram. O sol entrega tudo no meio do dia; a demanda do Brasil sobe no fim da tarde, quando a geração solar já está caindo. Sem uma forma de guardar a energia entre um momento e outro, sobra energia numa hora e falta na outra.

Uma casa com sistema on-grid vive uma versão pequena e privada exatamente do mesmo desencontro. A diferença é que quem tem usina de grande porte não pode resolver sozinho, e o dono de uma residência pode, com uma bateria e um inversor compatível.

O mercado livre chega, mas para residência é 2028, não 2027

Na gravação, ele mencionou que "ano que vem abre o mercado livre de energia". A previsão está na direção certa, e o calendário publicado permite ser mais preciso do que uma conversa gravada permite.

A Lei 15.269, sancionada em 24 de novembro de 2025, definiu a abertura para os consumidores de baixa tensão em duas etapas: comerciais e industriais até novembro de 2027, residenciais até novembro de 2028. A proposta do Ministério de Minas e Energia trabalha com 1º de março de 2027 e 1º de março de 2028, e a ANEEL colocou o detalhamento regulatório na agenda de 2026 e 2027.

O que muda Quando Situação
TUSD Fio B em 75%Conexões em 2027Lei 14.300, cronograma fechado
TUSD Fio B em 90%Conexões a partir de 2028Lei 14.300, teto do cronograma
Mercado livre para comércio e indústria de baixa tensãoAté nov. de 2027Lei 15.269, regulamentação em curso
Mercado livre para residênciasAté nov. de 2028Lei 15.269, regulamentação em curso
Tarifa branca disponível para toda a baixa tensãoDesde jan. de 2020Regra da ANEEL, adesão opcional

Reunidas numa linha do tempo, as três datas explicam a aposta dele melhor do que a frase sozinha explicava. 2028 é o ano em que o encargo sobre a energia injetada chega ao teto e, no mesmo período, a residência ganha o direito de escolher de quem compra energia. Um consumidor que pode escolher fornecedor e que paga caro para devolver energia à rede tem muito mais motivo para guardar a própria geração do que o consumidor de hoje.

O que a LIV está recomendando com isso na mão

TL;DR Não é hora de comprar bateria com medo de 2028. É hora de exigir que o projeto instalado agora suporte receber uma bateria depois, sem trocar o inversor.

Uma leitura apressada desse cenário levaria a um discurso de urgência, e não é isso que a LIV vai fazer. Para a maior parte das residências do Rio Grande do Norte, hoje, o sistema on-grid sem bateria continua sendo a decisão de melhor retorno. A maioria segue na tarifa convencional, o Fio B ainda está em 60% e o preço do armazenamento, apesar da queda, ainda alonga o payback do conjunto.

O que muda no nosso jeito de trabalhar é outra coisa: o projeto precisa nascer preparado. A decisão que custa caro não é deixar de comprar bateria hoje, é instalar um sistema que só sabe injetar na rede e descobrir, daqui a três anos, que colocar armazenamento exige trocar o inversor inteiro. Essa diferença é decidida no papel, antes da instalação, e é o assunto do artigo sobre por que o sistema solar deve ser projetado pensando no off-grid.

Na prática, isso aparece em três lugares da nossa proposta. O inversor especificado precisa aceitar armazenamento ou permitir acoplamento sem retrabalho. O quadro e o espaço físico precisam comportar o gabinete da bateria. E o dimensionamento precisa olhar o horário do consumo da casa, não apenas o total da conta de luz. Uma família que consome 500 kWh concentrados à noite e outra que consome os mesmos 500 kWh espalhados pelo dia não deveriam receber a mesma proposta, e ainda recebem, no mercado inteiro.

Felipe defendeu que a integradora apresente duas propostas ao cliente, uma com sistema convencional e outra com híbrido, mesmo sabendo que a maioria vai escolher a primeira. O argumento dele é comercial, e concordamos com ele por um motivo que é de outra ordem: cliente que enxergou as duas contas lado a lado decide com informação. Cliente que só viu uma decide no escuro e descobre a outra depois, geralmente por um vizinho.

É o mesmo raciocínio que sustenta o resto do jeito como a LIV trabalha. A gente não acha que a melhor decisão é a mais rápida, e não acha que a antecipação de uma regra de 2028 seja motivo para apressar ninguém em 2026. Acha que o cliente merece ver o cronograma inteiro antes de assinar, inclusive a parte que ainda não aconteceu.

Próximo passo

Seu projeto suporta receber uma bateria depois?

A simulação parte da sua conta de luz e do horário em que a sua casa consome, e mostra o dimensionamento junto com o retorno estimado. Se o solar não fizer sentido para o seu perfil, ela diz isso também.

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Perguntas Frequentes

Energia solar com bateria vale a pena em 2026?

Para a maior parte das residências de Natal e do Rio Grande do Norte, o sistema on-grid sem bateria ainda entrega o melhor retorno em 2026, porque a região tem poucas interrupções de fornecimento e a maioria dos consumidores segue na tarifa convencional, que cobra o mesmo valor pelo kWh a qualquer hora. A conta muda em dois cenários: quando o consumidor migra para a tarifa branca, que encarece o consumo do fim da tarde e do começo da noite, e à medida que o TUSD Fio B avança para 90% em 2028, reduzindo o valor da energia injetada na rede. Nesses dois casos, guardar energia para usar à noite passa a ter retorno próprio.

Quanto custa uma bateria para energia solar em 2026?

Felipe Wanderley, gerente nacional de grandes contas da Solfácil, citou em julho de 2026 uma faixa de R$ 4.900 a R$ 5.000 para a bateria, contra cerca de R$ 12 mil no ano anterior. Esse valor é o do equipamento, não o de um sistema híbrido completo: adicionar armazenamento a um projeto envolve também inversor compatível, proteções, quadro e mão de obra. Em uma proposta séria, esses itens aparecem separados.

O que é tarifa branca e por que ela muda a conta de quem tem energia solar?

A tarifa branca é uma modalidade tarifária opcional para consumidores de baixa tensão, disponível para todos desde janeiro de 2020 por regra da ANEEL, com exceção dos consumidores de baixa renda e da iluminação pública. Nela o preço do kWh varia com o horário: fica mais caro no posto de ponta, no fim da tarde e começo da noite, e mais barato fora dela. Para quem tem energia solar isso é relevante porque o sistema on-grid gera no meio do dia e a casa consome mais à noite. Na tarifa convencional os dois se compensam pelo mesmo preço. Na tarifa branca, a energia devolvida de dia vale menos do que a consumida à noite custa.

Quem já tem sistema on-grid consegue instalar bateria depois?

Depende de como o projeto foi feito. Sistemas dimensionados apenas para injetar na rede costumam usar inversor sem entrada para armazenamento, e nesse caso adicionar bateria exige trocar o inversor ou acrescentar um segundo equipamento, o que encarece bastante a conversão. Projetos preparados desde o início deixam a compatibilidade resolvida no inversor e no espaço físico do quadro, e a bateria entra depois como um acréscimo, sem refazer a instalação.

Quando o mercado livre de energia abre para residências no Brasil?

A Lei 15.269, sancionada em 24 de novembro de 2025, definiu o calendário de abertura para os consumidores de baixa tensão. Os consumidores comerciais e industriais de baixa tensão passam a poder escolher o fornecedor até novembro de 2027, e os residenciais até novembro de 2028. A proposta do Ministério de Minas e Energia colocou as datas em 1º de março de 2027 e 1º de março de 2028, respectivamente, e a ANEEL trata do detalhamento regulatório na agenda de 2026 e 2027.

Bateria serve para não ficar sem energia quando falta luz?

Serve, desde que o sistema seja projetado com essa função. Um inversor híbrido com bateria consegue manter cargas essenciais funcionando durante uma interrupção da rede, o que um sistema on-grid comum não faz, porque ele se desliga por segurança quando a rede cai. Em Natal e nas cidades maiores do Rio Grande do Norte, porém, a frequência de interrupções é baixa, e esse benefício isolado raramente paga o investimento. O argumento econômico mais forte para armazenamento no estado é tarifário.

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